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Artigo: Vamos falar da qualidade do ar nas grandes cidades?

Vamos falar da qualidade do ar nas grandes cidades?

por Evandro Gussi*

A poluição do ar é hoje uma das vilãs da saúde pública nas metrópoles, responsável por 4,2 milhões de mortes no mundo, todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em relatório publicado em abril deste ano, a OMS estima que quase toda a população mundial respira ar insalubre, em parte, pela utilização de combustíveis fósseis. Estudo da conceituada Universidade de Harvard conclui que um aumento de apenas 1% na concentração de material particulado fino (MP 2.5) resultaria em um incremento de 8% das mortes por covid-19.

A pandemia, por sinal, impactou diretamente nos índices de poluição nos grandes centros urbanos ao redor do planeta e evidenciou o papel dos combustíveis fósseis nesse sentido. Isso porque, com as medidas de restrição de circulação, foi registrada uma salutar redução de poluentes e consequente melhoria da qualidade do ar nessas cidades. De acordo com o relatório anual da IQAir, website que mede e ranqueia esses indicadores, 65% das cidades no mundo inteiro experimentaram significativas melhorias na qualidade do ar em 2020, na comparação com o ano anterior.

Nesse sentido, a metrópole de São Paulo é ilustrativa. Sendo a quarta maior cidade do globo em termos de população, e conhecida pelos constantes congestionamentos e lentidão no trânsito, ocupou em 2021 a posição de 1.779 dentre as cidades mais poluídas do mundo.  Isso se deve, em grande medida, pelo fato de que o maior centro urbano do Brasil, conta com frota flex predominante, ou seja, naquele ano, 64% da gasolina foi substituída por etanol, combustível que praticamente não emite material particulado.

Situação oposta pode ser observada em outra parte do planeta, a capital indiana, Nova Deli. A segunda maior cidade do mundo ocupou o quarto lugar dentre as cidades mais poluídas no ranking da IQAir, no ano passado. E mais, se considerarmos as 50 cidades mais poluídas do mundo, 34 são indianas. Não por acaso, o governo da Índia está revendo sua matriz de combustíveis e de transportes, visando à melhoria da qualidade do ar.

Como resultado de uma produtiva parceria entre os governos e setores privados do Brasil e da Índia, o país asiático decidiu aprovar a mistura de 20% de etanol na gasolina até 2025, além da adoção de veículos flex que, assim como no Brasil, podem rodar indistintamente com gasolina ou etanol. Com isso, além da melhoria da qualidade do ar, indianos deverão, ainda, reduzir significativamente a importação de petróleo, que hoje atinge 80% da sua demanda doméstica, visto que já são grandes produtores de cana-de-açúcar, relevante matéria prima para a produção do etanol local.

Impacto global

Além da redução significativa da emissão de poluentes locais, o etanol também se apresenta como uma das melhores alternativas para endereçar um outro desafio, este de nível mundial, e que se configura como um dos mais importantes deste século: o aquecimento global. De fato, o etanol, considerando a análise do ciclo de vida, é capaz de reduzir em cerca de 90% as emissões de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, comparativamente à gasolina.

Assim, além do Brasil e da Índia, muitos outros países têm enxergado no etanol uma solução imediata e economicamente viável para reduzir emissões e, consequentemente, atingir os compromissos adotados no Acordo de Paris. Dentre eles, destacam-se Estados Unidos, União Europeia, China e, mais recentemente, Reino Unido, que adotou o aumento da mistura de etanol na gasolina, de 5% para 10%, em setembro do ano passado.

Além do uso do etanol, outras soluções, como a eletrificação da frota de veículos, que poderão também se utilizar do etanol, seja nos carros híbridos flex, seja no etanol como fonte de hidrogênio para mover as baterias, deverão fazer parte de um conjunto de múltiplas rotas tecnológicas com um comum: a descarbonização da economia e a melhoria da qualidade do ar. A atual guerra que vivenciamos na Europa evidencia a necessidade urgente de se reduzir a dependência energética não somente das origens geográficas, mas também, e principalmente, a premência da diversificação das fontes de energia, particularmente aquelas limpas e renováveis.

*Evandro Gussi é presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense.