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Bioeletricidade: conjuntura atual e perspectivas futuras

20 de setembro de 2022
bioeletricidade

Por Zilmar Souza*

Nos  últimos três anos (2019-2021), a geração acumulada de bioeletricidade sucroenergética foi de 109.929 GWh. Essa geração seria suficiente para suprir o consumo de energia elétrica do mundo por quase dois dias, a União Europeia por 14 dias, os EUA por 10 dias, a China por sete dias e a Argentina por quase um ano.

Desde 2013, o setor sucroenergético produz bioeletricidade mais para a rede do que para o consumo próprio. Em 2021, da produção de bioeletricidade pelo setor sucroenergético, 59% foram exportados para a rede nacional e 41% foram destinados para o autoconsumo das usinas.

Ainda, especificamente em 2021, o setor sucroenergético produziu 20.201.708 MWh para a rede, redução de 10,6% em relação à igual período em 2020, num ano em que vivenciamos a pior crise hidrológica desde 1930 (ONS, 2022) e uma menor oferta de cana-de-açúcar na safra em função das condições climáticas adversas excepcionais, com forte estiagem e sucessivas geadas no período.

Os meses de maio a novembro de 2021 – período seco e crítico do setor elétrico – representam 85% do total da geração de bioeletricidade sucroenergética para a rede em 2021, ressaltando a relevância da safra canavieira na Região Centro-Sul, tradicionalmente iniciada em abril de cada ano.

Esses 20.201.708 MWh da bioeletricidade sucroenergética representaram uma geração muito estratégica para o país, equivalente a 30,4% da geração de energia elétrica pela Usina Itaipu em 2021, 63,5% da geração pela Usina Belo Monte ou 31% de toda a geração termelétrica a gás em 2021.

Também foram equivalentes a reduzir as emissões de CO2 estimadas em 7 milhões toneladas, marca que somente seria atingida com o cultivo de 49 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos, e a terem poupado 14% da energia total capaz de ser armazenada sob a forma de água nos reservatórios das hidrelétricas do submercado Sudeste/Centro-Oeste, por conta da maior previsibilidade e disponibilidade da bioeletricidade justamente no período seco e crítico para o setor elétrico brasileiro.

A geração de bioeletricidade em 2022

De janeiro a junho de 2022, a bioeletricidade ofertada para a rede foi de quase 10 milhões de MWh, sendo a geração com o bagaço e a palha da cana-de-açúcar responsáveis por 65,5% da oferta total pela bioeletricidade para a rede no país.

Em relação ao mesmo período do ano passado (janeiro a junho), a oferta de bioeletricidade para a rede apresentou uma queda de 9,7%, muito por conta da queda na oferta  de bioeletricidade sucroenergética à rede, impactada pela redução da moagem de cana-de-açúcar, pois a posição acumulada da moagem entre 1º de abril de 2022 e 1º de julho de 2022 em relação a igual período em 2021 foi de queda de quase 12% na Região Centro-Sul, principal região produtora no país.

Mesmo havendo uma redução na geração de  bioeletricidade sucroenergética à rede no 1º semestre de 2022, os 6.268.684 MWh ofertados foram equivalentes a quase duas vezes a geração somada de todas as térmicas a carvão mineral e a óleo no mesmo período.

A expansão prevista para 2022 a 2024

Atualmente, a fonte biomassa tem 16.771 MW em potência outorgada, com 615 centrais geradoras, representando 9% da matriz elétrica brasileira (186.871 MW). A potência outorgada à biomassa sólida da cana-de-açúcar é de 12.060 MW (72% da fonte biomassa em geral), com 415 centrais geradoras, e a potência outorgada ao biogás agroindustrial é de 31,9 MW com apenas quatro centrais geradoras (ANEEL, 2022).

Em 2021, a fonte biomassa instalou 755 MW, representando 10% do total de acréscimo instalado na matriz elétrica brasileira por todas as fontes de geração (7.562 MW). De janeiro até 15 de agosto de 2022, a fonte biomassa acrescentou 576 MW novos à matriz elétrica brasileira, com a previsão de acrescentar mais 323 MW até o fim deste ano, totalizando 899 MW previstos para 2022, representando novamente 10% do total de acréscimo previsto na matriz elétrica por todas as fontes de geração neste ano (8.717 MW).

Já para os próximos anos, segundo a ANEEL, em 2023 e 2024, a fonte biomassa deverá acrescentar 248 MW e 591 MW à matriz elétrica brasileira, representando 2% e 7% da expansão prevista para a matriz respectivamente em 2023 e 2024, diminuindo a representatividade da fonte biomassa na expansão anual da matriz elétrica brasileira.

Uma pauta para o desenvolvimento da bioeletricidade

Segundo a EPE (2022), aproveitamos menos de 15% do potencial técnico de geração de bioeletricidade e do biogás sucroenergéticos para a rede. Para se reduzir este hiato entre a geração efetiva de bioeletricidade e seu potencial, é importante estabelecermos uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade e o biogás. Tal política setorial deve primar por diretrizes básicas envolvendo o esforço conjunto de agentes públicos e privados, dentre elas:

  1. Avançar com a instituição de mecanismos, nos mercados regulado e livre, que valorizem os atributos locacionais, elétricos, confiabilidade, ambientais, econômicos e sociais advindos do uso da bioeletricidade e do biogás.
  2. Fortalecer o mercado livre, estimulando mecanismos para viabilizar projetos, incluindo financiamento, segurança de mercado e uma formação de preços mais crível no Mercado de Curto Prazo (MCP), regularizando o pagamento mensal dos créditos devidos nas liquidações financeiras no MCP.
  3. Dada a forte complementariedade entre a bioeletricidade e a fonte hídrica, instituir um programa de contratação por meio de Leilões de “Manutenção dos Reservatórios” ou Energia Nova/Existente e a flexibilização da metodologia de revisão da garantia física das usinas.
  4. Mitigação da dificuldade de conexão às redes elétricas, estabelecendo soluções estruturadas de médio e longo prazo concatenadas com o planejamento setorial.
  5. Estabelecer nos instrumentos de planejamento setorial uma visão estruturante e integrada da bioeletricidade com os demais produtos da cana-de-açúcar na matriz de energia do país (etanol, biogás e biometano).

Sustentável e renovável, a bioeletricidade é gerada próxima aos centros consumidores de energia elétrica (o que reduz as perdas do sistema e a necessidade de investimentos em transmissão), além de ser uma geração não intermitente e complementar à geração hídrica (geração de bioeletricidade na região Centro-Sul do país concentra-se entre abril e novembro, meses de safra da cana-de-açúcar, período mais seco do ano). Trata-se de uma geração estratégica para o país com grande potencial a aproveitar.

*Zilmar Souza é gerente de bioeletricidade na União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica).

Artigo publicado originalmente na Revista RPAnews.