fbpx

Brasil é “bola da vez” na rota do etanol celulósico

7 de novembro de 2012

Na esteira de projetos anunciados em países como Estados Unidos, China e Itália, o Brasil está prestes a integrar um seleto grupo de nações que planejam iniciar a produção em escala comercial do etanol de segunda geração a partir de 2013. O consultor em Emissões e Tecnologia da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Alfred Szwarc, acredita que os diversos projetos-piloto em andamento no País deverão ganhar força a partir do segundo semestre do próximo ano, quando está previsto o início das operações da primeira planta industrial de biocombustível celulósico do Hemisfério Sul, a ser construída pela multinacional brasileira GraalBio no Estado de Alagoas (AL).

Segundo Szwarc, embora o Brasil já domine a tecnologia para fazer etanol a partir da biomassa da cana-de-açúcar, o grande desafio para a fabricação em larga escala do produto feito a partir de bagaço e palha de cana é vencer o maior custo de produção. “Esta primeira fábrica da GraalBio, que será a sexta unidade industrial de etanol celulósico construída no mundo, representa um avanço importante no desenvolvimento da tecnologia e ganho de escala, o que deve contribuir para uma maior competitividade do novo processo de produção” explica.

A GraalBio informa que a nova usina, que deverá entrar em operação no final de 2013 na cidade alagoana de São Miguel dos Campos, terá capacidade de produzir anualmente até 82 milhões de litros de etanol de segunda geração. A tecnologia vai incrementar a produção doméstica do combustível renovável sem a necessidade de expansão de fronteiras agrícolas nacionais. A construção do empreendimento, que demandará investimentos de R$ 300 milhões, será viabilizada pela parceria da empresa brasileira com a BetaRenewables e à Chemtex, ligadas ao grupo italiano Mossi&Ghisolfi (M&G), um dos principais fabricantes de embalagens PET do mundo.

Para converter a biomassa da cana em biocombustível, a usina da GraalBio utilizará no Brasil enzimas desenvolvida pela empresa de biotecnologia dinamarquesa Novozymes, parceira da M&G em uma planta industrial que deverá entrar em operação no início de 2013, na cidade de Crescentino, no norte da Itália. A expectativa do projeto italiano é produzir anualmente 70 milhões de litros de etanol feito de palha de trigo e outras matérias-primas locais. Com as enzimas da Novozymes, companhia que também participa da construção de uma usina de etanol celulósico na China, a GraalBio pretende ampliar o rendimento médio de uma unidade produtiva de etanol convencional em mais de 35%.

Segundo o presidente do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), José Gustavo Teixeira Leite, entidade que também pesquisa novas tecnologias para produção de etanol de segunda geração, atualmente um hectare (ha) de cana gera em torno de 85 litros de etanol. Com o celulósico, haverá um aumento na produtividade de 25 a 30 litros por ha. Em 2020, com o aprimoramento desse processo, o acréscimo poderá chegar a até 90% do volume atual.

Projetos pelo mundo

Na opinião do consultor de Emissões e Tecnologia da UNICA, embora o Brasil, Itália e China estejam evoluindo na produção do biocombustível celulósico, os EUA deverão liderar este mercado pois estão investindo bastante nas novas tecnologias de produção. “Ao longo dos próximos dois anos, os americanos devem inaugurar três usinas dedicadas ao combustível renovável de segunda geração. Serão duas plantas no estado de Iowa e uma no Kansas,” informa o executivo.

Em Iowa, na cidade de Emmetsburg, uma unidade industrial com capacidade para produzir inicialmente 75 milhões de litros nos próximos dois anos está sendo construída graças à parceria entre a bioquímica holandesa DSM, referência na produção de leveduras, e a Poet, principal produtora de etanol dos EUA. No estado de Nevada, no oeste do país, a DuPont também está financiando uma fábrica que deverá fornecer até 56 bilhões de litros em 2015, volume que poderá alcançar 136 bilhões de litros anuais em 2022.

No Kansas, a multinacional espanhola Abengoa, que também possui usinas produtoras de etanol de primeira geração no Brasil, pretende colocar em funcionamento já no próximo ano uma planta com capacidade de produzir anualmente quase 95 milhões de litros do biocombustível celulósico.

Mercado enzimático

Responsáveis por “quebrar” os resíduos do bagaço da cana, palha de milho, de trigo ou lascas de madeira, que posteriormente são fermentados para produção do etanol de segunda geração, as enzimas têm sido alvo de intensas pesquisas por parte de empresas de biotecnologia. A dinamarquesa Novozymes está entre as que mais investem no aprimoramento destes processos, marcando presença em muitos dos projetos previstos para entrar em produção comercial a partir de 2013 pelo mundo.

No Brasil, além de fornecer enzimas para a nova fábrica da GraalBio, a multinacional dinamarquesa mantém parcerias com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Petrobrás e CTC. Neste último caso, um acordo assinado em 2007 inclui, além dos testes em laboratório, o funcionamento de uma pequena unidade piloto na cidade de Piracicaba (SP), com capacidade para produzir diariamente até mil litros de combustível celulósico a partir da biomassa de cana.

Outra empresa que também poderá entrar com força no mercado brasileiro nos próximos anos é a gigante suíça Clariant, que até o final deste ano vai iniciar a produção do etanol de segunda geração na maior planta-piloto da Alemanha, inaugurada em 20 de julho deste ano em Straubing, no estado da Bavária. Nela, a companhia está testando sua tecnologia para converter resíduos agrícolas em combustível renovável avançado em escala industrial. Desenvolvendo suas próprias enzimas desde 2006, a Clariant apresentou o produto aos brasileiros durante o World Biofuels Markets Brazil, evento que reuniu diversos especialistas e empresas do setor sucroenergético no mês de setembro.

“Os resultados que obtivermos nos permitirão planejar as instalações de produção industrial de maneira eficiente e econômica e, posteriormente, concretizá-las em cooperação com parceiros”, informou o diretor do Centro de Biotecnologia e Produtos Renováveis da Clariant em Straubing, Andre Koltermann.