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Motoboys já abastecem com etanol, mesmo antes da chegada das motos Flex-Fuel

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11 de agosto de 2008


Quando um motorista vai abastecer seu carro flex, é comum o frentista perguntar: “completa com álcool?”. Pode parecer estranho, no entanto, quando esta pergunta é feita a um motociclista, já que as motos flex-fuel ainda não foram lançadas. Mas muitos motoboys, que fazem serviços de entrega em São Paulo, já abastecem seus veículos com etanol em vez de gasolina.


A demora no lançamento das motos com motores flex, projetados para funcionar com etanol, gasolina ou qualquer mistura dos dois combustíveis, tem motivado o surgimento de adaptações que não são recomendadas pelos fabricantes. “São adaptações simples, que geralmente se limitam a pequenas mudanças no carburador, para possibilitar o uso de etanol. Isso freqüentemente leva ao aumento excessivo de consumo e perda de desempenho e dirigibilidade”, explicou o consultor de emissões e tecnologia da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), Alfred Szwarc.


Ele esclarece que esse tipo de adaptação pode reduzir consideravelmente a vida útil de vários componentes das motos, como tanque e bomba de combustível, carburador, motor e escapamento. Apesar disso, muitos motoboys consideram que a economia propiciada pelo uso do etanol compensa, por ser mais barato do que a gasolina. Além disso, argumentam que o valor da retífica de motor é baixo, em torno de R$ 450, o que valeria o risco para quem roda muito.


Segundo Szwarc, antes de 2003, ano do lançamento dos carros Flex no Brasil, os donos de automóveis já misturavam mais etanol na gasolina, que vem com 25% de álcool no Brasil. O motivo era o menor custo do etanol. Com esta atitude, os consumidores acabaram mostrando às montadoras o que o mercado queria. “Os motoboys estão fazendo o mesmo há muito tempo e, novamente, mostrando o caminho para as montadoras”, afirmou.


O consultor da UNICA ressalta, no entanto, que há desafios tecnológicos para se fazer uma moto flex, o que justifica a demora no lançamento desta versão em duas rodas. “Nas motos,  especialmente as de baixa cilindrada, que representam a grande maioria da frota, existem fatores críticos que tiram o sono dos projetistas: a miniaturização e robustez dos principais componentes do sistema de alimentação de combustível, motor e controle de emissões. Justamente, por que os espaços são menores que nos automóveis, vários componentes ficam expostos e existe limitação de peso. Além disso, os custos agregados ao produto devem ser considerados, porque são veículos de baixo custo”, explica.


Segundo Szwarc, um projeto adequado envolve necessariamente a substituição do carburador pela injeção eletrônica, o uso de bomba  de combustível e outros componentes compatíveis com etanol, além de sensores para identificação do combustível. “O conjunto passa a ser gerenciado por um módulo eletrônico, um mini-computador que possibilita o uso de etanol, gasolina ou de suas misturas, sem qualquer interferência do condutor.  Como nas motos não há espaço para o tanque auxiliar, como nos automóveis flex para partida em baixa temperatura, existem duas soluções que podem ser adotadas: misturar cerca de 10% de gasolina ao etanol ou aquecer instantaneamente o sistema de injeção. A primeira opção é simples, porém requer atenção do condutor. A segunda opção, que está em estágio avançado de desenvolvimento, poderá resolver o problema definitivamente”.


As motos convertidas para flex, por meio das adaptações existentes, não oferecem os benefícios ambientais que os projetos das montadoras trarão. “Para obter ganhos concretos em termos ambientais”, diz Szwarc, “é preciso chegar a um produto com tecnologia dimensionada de modo correto. Ou seja, quando uma adaptação é feita de qualquer jeito, o resultado ambiental é normalmente ruim”.


Hoje, as motos poluem mais do que os carros


O lançamento das motos com motores flex não só trará vantagem ao bolso dos motociclistas no dia-a-dia, mas, também, deverá ajudar a reduzir a emissão de poluentes. Segundo a Cetesb, agência ambiental do Estado de São Paulo, as motos contribuem hoje na Região Metropolitana de São Paulo com cerca de 17% da emissão de monóxido de carbono (CO) e 9% da emissão de hidrocarbonetos, dois importantes poluentes do meio urbano.


O motivo, entre outras coisas, é que as motos não utilizam catalisadores e outras tecnologias para o controle das emissões. A partir do ano que vem, com entrada da etapa III do Promot (Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares, estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente em 2002), a situação deve melhorar, porque se espera avançar muito na redução da poluição provocada pelas motos.


“Em 2009, começa a terceira etapa do Promot, que equivale às normas Euro III, atualmente em vigor na União Européia, quando as motos receberão catalisadores e sistemas de injeção eletrônica de combustível”, informa Szwarc, dizendo que as motos Flex deverão chegar ao mercado nesta etapa para “pegar carona no salto tecnológico que irá ocorrer no setor de duas rodas”.


Em 2003 o Brasil começou a adotar as normas Euro I, iniciando o processo de redução nas emissões e, em 2005, veio a Euro II, que está em vigor até hoje, e que trouxe alguns avanços tecnológicos, porém ainda permitindo que as motos poluam mais do que os automóveis de hoje.


Apesar de a tecnologia de controle de emissões de poluentes, que será adotada a partir de 2009, ser bastante avançada e reduzir em mais de 90% as emissões permitidas em 2003, o uso do etanol nas motos flex trará vantagens adicionais em relação à gasolina, especialmente na redução da emissão de compostos de enxofre e de partículas.


“Será especialmente importante a redução proporcionada pelo uso do etanol na emissão do gás carbônico (CO2), principal responsável pelo aquecimento global, já que a emissão deste gás se anula no ciclo de vida do etanol. A tecnologia flex vai ajudar as motos a poluir menos, devido ao uso eficiente do etanol por estes veículos”, aposta Szwarc.