20 de março de 2012

A insegurança jurídica gerada em 2010 pelo parecer da Advocacia Geral da União (AGU), que limita a aquisição de imóveis rurais por empresas nacionais com participação estrangeira em seu capital, deverá afastar investimentos de mais de R$ 100 bilhões em diversas áreas do agronegócio brasileiro, inclusive no setor sucroenergético. Essa foi a mensagem que o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Marcos Jank, levou aos participantes do seminário “Agronegócio na Visão dos Tribunais Superiores,” realizado em 09/03 em São Paulo por um dos principais escritórios de advocacia do País, o Demarest & Almeida.

“Esta proposta poderia inviabilizar o investimento de R$ 100 bilhões em projetos agroindustriais relevantes. Isso prejudicará a arrecadação de impostos e a geração de empregos formais em setores indutores de desenvolvimento regional no interior do Brasil,” avaliou Jank.

O projeto apresentado pela AGU em agosto de 2010 estabelece que a compra de terras por empresas brasileiras com controle de capital estrangeiro fica limitada a 50 quilômetros quadrados ou cinco mil hectares (ha). Segundo o Governo, a medida tem o objetivo de evitar negociatas com propriedades públicas e preservar os espaços destinados à reforma agrária.

Em resposta à AGU, representada no evento pelo ministro Luís Inácio Lucena Adams, o presidente da UNICA observou a diferença entre uma companhia nacional de capital estrangeiro e uma empresa, de fato, estrangeira. Uma empresa estrangeira é sediada fora do Brasil, tem pessoa jurídica estrangeira, é constituída de acordo com leis de outro país, só está sujeita parcialmente às leis brasileiras e não é tributada integralmente, dependendo inclusive de autorização para operar no País e ficando sujeita à expropriação de bens que tenha no Brasil caso descumpra a função social da propriedade. Já uma empresa brasileira com capital estrangeira é praticamente igual a uma empresa brasileira com controle nacional: ambas tem sede no Brasil, pessoas jurídicas brasileiras, são constituídas de acordo com as leis brasileiras, às quais se submetem integralmente e pelas quais são tributadas.

Os dois tipos de empresa também estão sujeitos às mesmas obrigações e direitos salvo exceções específicas da Constituição brasileira, e caso descumpram a função social da propriedade na forma de exploração do imóvel rural, ambas podem ser expropriadas.

“Esta confusão de conceito tem criado um impasse para aquisições futuras. Além disso, é preciso assegurar a validade dos contratos anteriores ao parecer de 2010,” observa Jank. Na opinião de Adams, o parecer da AGU considera que o crescimento econômico do Brasil verificado na última década e a posição de destaque em relação a temas como a segurança alimentar e a preservação do meio ambiente, colocam o País em um novo patamar de soberania. “Não podemos nos tornar objeto de interesses alheios,” enfatizou o ministro, defendendo que é preciso “alcançar um equilíbrio entre um processo de investimento e a garantia de retorno desse investimento.”

Investimentos no etanol

Especificamente sobre a indústria canavieira, Jank demonstrou o quanto o projeto pode prejudicar o setor e a matriz energética nacional. A UNICA estima que para atender ao crescimento de demanda de etanol em 2020, serão necessários investimentos de R$120 bilhões e a instalação de até 120 novas unidades industriais.

“Considerando que a participação atual do capital externo no setor é de, no mínimo, 25%, até 2020 o País deverá receber investimentos estrangeiros da ordem de US$ 11 a US$ 20 bilhões,” ressaltou o presidente da UNICA. Ele frisou que os fabricantes de insumos, defensivos e máquinas agrícolas também serão impactados negativamente com a fuga das multinacionais em atividades agroindustriais, especialmente no caso das indústrias de celulose e papel, florestas plantadas e cana-de-açúcar.

Jank falou a uma plateia composta por representantes do governo e de instituições ligadas ao agronegócio. Destaque para as presenças do ministro do Superior Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, do economista José Roberto Mendonça de Barros e de André Pessoa, integrante do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

Publicações Recentes

Veja Também

Estudo de Harvard mostra que mercado do etanol ajuda o desenvolvimento de países

Suécia defende fim de tarifas sobre o álcool brasileiro

O ministro do Comércio da Suécia, Stefen Tolgfors, afirmou que a União Européia deveria terminar com a imposição de tarifas sobre a importação de etanol brasileiro. "Esta é uma questão crucial. A Europa não tem produção suficiente e precisa importar", disse. "A...

ler mais