19 de agosto de 2008


O aumento do preço da tortilha (tradicional prato mexicano feito de milho) motivou o trabalho sobre o impacto dos biocombustíveis nos preços dos alimentos, que está sendo realizado por quatro cientistas mexicanas lideradas pela doutora Arcelia Gonzáles Merino, do Departamento de Sociologia da Universidade Autônoma Metropolitana. Para verificar em que medida o etanol derivado de cana-de-açúcar não concorre com a produção de alimentos para a população, as cientistas estão em visita técnica ao Brasil.


 


 


“O México é um dos maiores consumidores de milho como alimento humano do mundo”, explicou a doutora Arcelia, na sede da UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), nesta segunda-feira (18/08/2008). Segundo ela, com a política mexicana para estimular a produção de etanol de milho, o preço da tortilha duplicou de preço em seu país. “Isso trouxe reflexos nocivos à população”, afirmou a pesquisadora.


Dentre os aspectos que mais despertaram a atenção das cientistas, destacaram-se a produção de etanol de cana suficiente para substituir 50% da gasolina necessária para mover a frota de carros do Brasil, com o uso de apenas 1% da terra arável do País, a inexistência de incentivos fiscais do governo para o setor sucroenergético, o potencial de geração de energia elétrica pelas usinas de cana, por meio do bagaço e da palha, e a alta produtividade brasileira de alimentos, como soja, carne e milho, simultaneamente à produção de cana.


 


 


 


Arcelia perguntou se a expansão da produção de cana-de-açúcar poderia estimular o desmatamento da floresta amazônica. A relações públicas da UNICA, Carolina Costa, respondeu que a região amazônica está longe dos mercados onde se concentram o consumo e mesmo as estruturas de distribuição do biocombustível. Além disso, em 2020 serão produzidos no Brasil quase três vezes mais etanol (65 bilhões de litros) do que em 2007 (22 bilhões de litros), apenas duplicando a área de plantio atual em áreas de pastagens degradas, devido ao incremento tecnológico da lavoura de cana.


Outro questionamento foi sobre a sustentabilidade social da produção de etanol brasileira. As cientistas foram informadas que os trabalhadores rurais do setor sucroenergético ganham três vezes mais do que os de qualquer outra lavoura do País e que, em


Cientistas comparam etanol de cana ao de milho decorrência da mecanização, eles estão recebendo treinamento para se adequarem a funções mais avançadas dentro do ciclo de produção.



“O México tem cana-de-açúcar”, declarou Arcelia, “porém, as lavouras são de baixa produtividade e os engenhos são muito antiquados”. A cientista considerou positiva a iniciativa da UNICA de estimular outros países a produzir cana para tornar o etanol uma commodity global.

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